Meu relato sobre AVC

Ainda tenho dificuldade em falar sobre o ocorrido, mas entendo que meu relato pode servir para alguém que esteja passando por essa situação ou possui dúvidas sobre os danos que o anticoncepcional pode causar. Acredito que meu erro foi escutar um ginecologista despreparado que me receitou anticoncepcional com a intenção controlar meus hormônios e evitar uma gestação não planejada, mas sem me alertar sobre o lado negativo do medicamento. Me mantive leiga com relação aos malefícios da pílula, pois tinha a velha ideia de que nunca iria acontecer comigo.

Tudo começou no dia 29 de março de 2017, duas horas após o parto do meu filho. Tinha acabado de passar por uma cesariana indicada pela minha obstetra, pois minha condição era de parto pélvico. Ainda na sala de recuperação, comecei a sentir fortes dores de cabeça. No início, achei que fosse por causa da emoção e toda aquela intensidade de sentimentos, mas a dor permaneceu por dois dias, período em que fiquei internada na maternidade até receber alta. Quando questionei os médicos sobre a dor intensa, eles disseram que era uma reação normal nas mulheres que passavam por esse tipo de cirurgia, pois a própria anestesia causava a reação.

Sendo assim, me deram alta e voltei para casa. Mas a dor só piorou. Fiquei prostrada na cama impossibilitada de cuidar do meu bebê, que acabou ficando aos cuidados do pai, tia e avós. A dor era tão intensa que quando me esforçava para levantar da cama, acabava vomitando. Foi então que resolvemos voltar ao hospital e quem sabe realizar uma punção lombar (procedimento utilizado para acabar com cefaleia causada pela anestesia peridural).

Na sala de espera da emergência senti meu corpo contorcer e tive uma convulsão. Fui rapidamente medicada e levada para a UTI onde recuperei a consciência 2 horas após o ocorrido. Eu estava confusa… Minha fala, memória e movimentos do lado esquerdo do corpo estavam comprometidos. Os médicos não entendiam o que estava acontecendo. Foi então que descobriram por meio de uma angiorressonância, que se tratava de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) Isquêmico, causado pelo uso de anticoncepcional.

Assim que tiveram o laudo conclusivo sobre meu estado de saúde, me receitaram as dolorosas injeções de anticoagulante (heparina), que serviram para evitar a formação de novos coágulos e dissolver o que já estava instalado no meu cérebro. O coágulo impedia a circulação sanguínea na região da cabeça, prejudicando meus movimentos e minha fala. Além disso, também me deram o remédio antiepilético para evitar novas convulsões mas não funcionou.

Permaneci internada por dias até descobrirem uma droga antiepiléptica que funcionasse melhor no meu caso, e que estabilizasse as convulsões e os movimentos involuntários do lado esquerdo do meu corpo. Foi então que me receitaram o Levetiracetam (Keppra), uma droga relativamente nova no mercado e muito eficaz da qual ainda faço uso. Foi a partir daí que meus movimentos e sensibilidade do corpo começaram a normalizar. Ainda internada, coletavam diariamente meu sangue para os exames de coagulação.

Fora do hospital, meu tratamento perdurou por mais oito meses fazendo uso diário do anticoagulante em comprimido (varfarina) e do anticonvulsivo (keppra). Tinha que coletar sangue obrigatoriamente uma vez por semana para acompanhar a coagulação, e uma vez por mês tinha acompanhamento com o neurologista. A cada dois meses repetia a angiorressonância, e dois dias por semana tinha sessões de fisioterapia durante esse período.

Em dezembro de 2017, após realizar os últimos exames daquele ano, o neurologista que acompanhava meu processo no Brasil, constatou que não havia mais o coágulo no meu cérebro. Durante esse processo recuperei 100% da fala. A fisioterapia ajudou a recupera a força do lado esquerdo do corpo e 95% dos movimentos dos dedos da mão esquerda. As sequelas que ficaram são as convulsões, controladas por medicação, e as dores de cabeça que acontecem raramente. Nada me impede de ter uma vida normal. De acordo com o médico um pedaço do meu cérebro foi lesionado pelo coágulo e, infelizmente, o órgão não se regenera. Dessa forma, o uso do anticonvulsivo, no meu caso, será para o resto da vida.

Ainda faço acompanhamento com o neurologista, agora na Noruega, que é onde moro atualmente. Qualquer anticoncepcional, com exceção do DIU de cobre ou prata está banido da minha vida por orientação estrita do médico. 

 

Publicado por

Stephane Paula

Oi, sou a Stephane Paula, jornalista. Nasci em Brasília, em 1990 e moro na Noruega. Já trabalhei em redação de jornal e como assessora de imprensa em algumas agências de comunicação no Brasil. Tenho interesse em diferentes tipos de assuntos. Amo escrever e coleciono textos que fiz ainda na infância. Seja sobre a vida cotidiana, assuntos políticos, filosóficos ou científicos o meu objetivo é sempre o mesmo, e está atrelado à tentativa de olhar o mundo com mais profundidade. Sou apaixonada por livros, pessoas e céu cinzento. Queria ter a capacidade de falar todas as línguas do mundo. Sou quieta de vez em muito, acredito que a introspecção é a melhor ferramenta para refletir sobre a vida e à si próprio.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s