Quando a alegria se vai

Era uma solidão dolorosa e ao mesmo tempo reconfortante. Parece contraditório, mas insisto em dizer que fez sentido naquele momento da minha vida, e que essa história teve um final feliz. Tudo isso me fez recordar daquela velha máxima das nossas mães: “você só valoriza as coisas quando as perde”. E isso não é diferente quando se trata de felicidade. A felicidade pode até não perdurar o tempo inteiro e isso ser normal, porque a depressão, depressão mesmo, é um negócio muito estranho.

Embora tenha sido diagnosticada com depressão no período do puerpério, minha tristeza não estava atrelada ao fato de ter tido um filho. Eu não nutria sentimento de rejeição ou superproteção com relação ao Daniel. Na verdade, tê-lo em minha vida era o mínimo de felicidade que eu conseguia sentir naquela fase. Os profissionais (psiquiatra e psicólogo) que acompanharam meu processo disseram que minha condição era algo pontual já que eu estava vivenciando uma sequência de acontecimentos extremamente difíceis, como por exemplo, ter ficado desempregada no final da gestação, problemas pessoais com o pai do meu filho e o AVC  logo após o parto do meu bebê.

Acredito que a doença começou a dar as caras logo que recebi alta do hospital, após ter ficado internada dias a fio por causa do AVC. Comecei a ter ataques de pânico, e não conseguia dormir, chorava muito porque tinha medo de ter convulsões estando sozinha no meu apartamento com o Daniel, que estava com menos de dois meses de vida. Tinha crises recorrentes de paralisia e movimentos involuntários no braço esquerdo, o que já me deixava para baixo, pois não sabia se voltaria ao normal. Me sentia muito culpada por estar com aquela limitação que tomava algum tempo e energia já que foram oito meses em processo de tratamento com medicação, exames semanais, neurologista e fisioterapia.

Não queria ver e nem falar com ninguém. Não queria dar satisfação do meu estado emocional. Só queria ficar quieta com o meu bebê sem precisar fingir um sorriso para as pessoas não ficarem preocupadas ou sentirem pena da minha situação. Embora minha vontade fosse de isolamento, minha situação não permitia, pois precisava recorrer às pessoas mais próximas porque o Daniel era muito pequeno e eu estava em tratamento por causa do AVC.

Por algum motivo eu estava vivendo o meu próprio luto. Foi um momento que, por meio da dor, pude acessar e vivenciar de maneira intensa minhas frustrações e traumas. Sempre tive muito apoio das pessoas próximas, e encontrei nessa rede de apoio força e coragem de procurar ajuda profissional. Foi a partir desse pontapé inicial, por meio de terapia e antidepressivo (6 meses de medicação), que pude enxergar minha situação com mais clareza e ressignificar algumas histórias não resolvidas. Tornei algumas questões que me causavam sofrimento e angústia em aprendizado, e isso tem permitido o meu crescimento pessoal. Isso mudou totalmente minha forma de encarar a vida. Dei uma alavancada na minha vida pessoal e profissional. Hoje me sinto mais resistente às adversidades da vida. 

Publicado por

Stephane Paula

Oi, sou a Stephane Paula, jornalista. Nasci em Brasília, em 1990 e moro na Noruega. Já trabalhei em redação de jornal e como assessora de imprensa em algumas agências de comunicação no Brasil. Tenho interesse em diferentes tipos de assuntos. Amo escrever e coleciono textos que fiz ainda na infância. Seja sobre a vida cotidiana, assuntos políticos, filosóficos ou científicos o meu objetivo é sempre o mesmo, e está atrelado à tentativa de olhar o mundo com mais profundidade. Sou apaixonada por livros, pessoas e céu cinzento. Queria ter a capacidade de falar todas as línguas do mundo. Sou quieta de vez em muito, acredito que a introspecção é a melhor ferramenta para refletir sobre a vida e à si próprio.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s